quarta-feira, setembro 13, 2006

Metade (Oswaldo Montenegro)

Metade (Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
e a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimento
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
e a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
e a outra metade não sei
Que não seja preciso mais que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é a canção
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

**************************************

Ouvir essa música/poema na voz de Oswaldo Montenegro, na madrugada de hoje, foi uma das coisas mais indescritivelmente tocantes que experimentei. Me permiti deixar fluir umas pequenas gotinhas de lágrima, inquietas mas discretas, contidas, mas puras, carregadas de sentido e de sentimento... especialmente, mas não exclusivamente, pela narração de Montenegro.

Obrigada ao silêncio, permitindo que no vácuo ecoasse tão bela canção.
Betty, 13/9/6

2 Comentários:

Blogger Vick disse...

Nem que seja por uma frase apenas, a identificação com esta canção-poema é certa! Somos metade de tudo, não é mesmo?
Beijos!

13/9/06 20:50  
Blogger Betty Nishi disse...

Vick,

tenha certeza disso!

beijos!

14/9/06 03:39  

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