sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Meu avô, meu herói!

"Meu avô, meu herói!" - assim se intitula a comunidade em que entrei no Orkut... é bem interessante como tem tanta gente que pensa e/ou sente as mesmas coisas que a gente...

Sempre pensei no meu avô! Como eu o amava! Ele é a minha melhor memória de infância! Tudo de bem de que me lembro tem ele junto: os passeios na pracinha de bicicleta, os chapéus de dobradura de jornal que ele ensinava a fazer lá na pracinha só p´ra a gente não pegar sol, o prêmio que ganhei da rádio Jovem Pan 2 (um LP) quando tinha 10 anos e ele foi quem me levou lá pra buscar o prêmio... Tantas memórias povoam meus pensamentos que meus olhos marejam de lembrar do rosto dele. Ele era meu herói! Eu não me lembro, mas sei que ele foi quem cuidou de mim desde quando eu ainda era um bebezinho, me botando dentro de uma caixa de papelão junto com um gatinho, e ia trabalhando e me nanando... e foi ele também que me transmitiu tanto gosto pelos estudos... como ele era tão inteligente! A saudade que sinto dele é imeeeeeensa, tanto que não caberia no espaço sideral. Ninguém na minha família entende esse meu sentimento especial por ele, acho...

Quero dizer, acho, porque por trás desse herói todo havia um ser humano bem frágil, sensível, indefeso, que por razões que ninguém poderá conhecer ao certo, se entregou ao vício das bebidas... E faleceu apreciando cada gotinha de cachaça 51, que era a preferida dele... Nunca me esquecerei da noite em que ele faleceu e eu voltava da faculdade, quando ao aproximar-me de casa, vi a luz de fora acesa, iluminando aquele ipê florido, carregado de amarelo... lindo, mas triste!- pensei. E, ao que me aproximo e vejo um monte de gente na porta da sala, a casa toda aberta de noite... Foi um pânico quando entrei em casa e vi aquele caixão todo florido sendo velado na sala. Era ele, despendindo-se para outro plano, em casa, como ele queria, na sala, com a cabeça pro norte. Eu pulei pra cima do caixão, desesperada, comecei a balançar o corpo, chorava, gritava, mandava acordar, queria que ele acordasse daquele sono, queria ele vivo, queria continuar vivendo com ele pra sempre... queria aprender mais coisas sobre a vida com ele... queria ainda entender tantas coisas...

Ele me ensinou que a beleza física agente perde um dia, quando fica com rugas, quando engorda, quando cria celulite... me ensinou que se há uma única coisa que ninguém nos tira é a inteligência e a sabedoria, que se estudarmos bastante e tentarmos entender o mundo e as razões da existência ou ocorrência das coisas, seríamos eternamente felizes... Ele me explicava que a minha orelha de abano era sinal de vida longa, que por isso eu não precisava chorar quando os coleguinhas da classe me pediam pra telefonar pra casa... Ele dizia que Buda tinha orelhas grandes também. Acho que por isso gosto da imagem do Buda: porque meu avô era budista e porque Buda tem duas orelhas bem grandes, e assim temos algo em comum!

Escrevo tudo isso, porque hoje, dia 2/fev/6, o mesmo passageiro que ontem teve seu embarque negado porque deu problemas a bordo por estar aparentemente alcoolizado, perdeu de novo a chance de voltar pra casa porque dormia no saguão enquanto o procurávamos para seu embarque. Só o localizamos quando o avião tinha suas portas fechadas. Eu e outro colega tentamos acordá-lo... em vão... Tivemos que desembarcá-lo em cadeira de rodas, dada a imposibilidade de locomoção. Mesmo tendo sido transferido para a cadeira, ele nem acordou. Continuava a dormir como uma pedra. Fizemos todo o trâmite de desembarque, precisamos procurar o passaporte, a passagem, falamos com a Federal, e ele continuava desacordado. Incrível! Quando finalmente o levamos ao saguão externo, ele acordou balbuciando o número do portão de embarque pela qual ele deveria ter partido.

Fiquei constrangida por ele. E penalizada também. Porque a julgar pelo comportamento de ontem e de hoje, era visível que não se tratava ali de apenas um "alcoolizado" senão de um "alcóolico"... para usar um termo menos pejorativo do que "alcóolatra". Isso é uma patologia grave, pois além de todo o prejuízo físico que recai sobre o corpo, o quanto se afeta a parte neurológica é incomensurável. Mas o pior é quando a pessoa nem tem consciência do problema. Para ele, ele não bebe: "I don´t know why I slept", disse-me ele.

O fato desse ser humano ser um japonês, de uma certa idade, magro, e principalmente por estar naquele estágio alcóolico, me fez lembrar imediatamente do meu avô, que também já deve ter tido momentos de apuros, de constrangimentos, de tristeza, de incompreensão, de tanta coisa... que, como eu disse antes, nunca saberemos o porquê.

AH! MEU AVÔ, MEU HERÓI! MEU HERÓI DO JEITO QUE ELE ERA!! QUE SAUDADE!

Domingo eu vou fazer uma longa visita à sua lápide...

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